1. O erro de prever o fim do GLP pela ótica das capitais
Todo debate sobre o futuro do GLP no Brasil comete o mesmo equívoco metodológico: parte da experiência dos bairros ricos das capitais para projetar o destino de um setor que existe, essencialmente, para abastecer o Brasil que não aparece nessa experiência. Indução elétrica em Pinheiros e Leblon é uma tendência real. Mas não é o Brasil real.
Com quase 100% de eletrificação formal, o Brasil ainda apresenta grande pobreza energética — e a contradição se resolve quando se distinguem acesso e acessibilidade. A lenha combinada ao GLP ainda abastece mais da metade do consumo residencial, e a cocção representa quase metade da energia usada nos lares, sendo o serviço mais dependente de fontes tradicionais.
O botijão de gás chegou onde a rede elétrica chegou primeiro — e permaneceu mesmo depois que a rede chegou. Isso diz algo importante sobre a natureza do produto e sobre a natureza da demanda que o sustenta.
2. O botijão como infraestrutura social de última milha
O GLP não é apenas um combustível. É uma infraestrutura social. O Brasil conta com 19 distribuidoras autorizadas e cerca de 59 mil revendas legalizadas, responsáveis pela capilaridade do abastecimento — com presença em 100% dos municípios brasileiros. Nenhuma rede de gás canalizado chega onde o botijão chega. Nenhum programa de indução elétrica consegue substituir, no curto prazo, a logística de última milha que essa cadeia construiu ao longo de décadas.
O Programa Gás do Povo, em vigor desde novembro de 2025, já beneficia cerca de 15 milhões de famílias nas 27 unidades federativas — aproximadamente 50 milhões de pessoas com acesso ao gás de cozinha por meio da rede de revendas credenciadas. A escala desse programa só é viável porque a infraestrutura de distribuição e revenda já existia. O Estado não a construiu — ele a encontrou pronta e a utilizou como veículo de política pública.
A escala do Programa Gás do Povo — 15 milhões de famílias, 50 milhões de pessoas — só é viável porque a infraestrutura de distribuição e revenda já existia. O Estado não a construiu. Ele a encontrou pronta e a utilizou como veículo de política pública.
3. Os três horizontes: longevidade com transformação
A análise prospectiva do setor precisa trabalhar com três horizontes distintos, cada um com dinâmica própria.
| Horizonte | Cenário | Dinâmica |
|---|---|---|
| 2026–2035 | Setor essencial e estruturalmente resiliente | Demanda ancorada em pobreza energética, capilaridade insubstituível e política pública de subsídio. Nenhuma tecnologia substituta terá escala suficiente em uma década. |
| 2035–2045 | Início de compressão seletiva | Eletrificação avança nas metrópoles. GN penetra regiões industriais. Mercado do botijão mantém volume, mas perde participação em segmentos e geografias específicos. |
| 2045–2055 | Reconfiguração estrutural, não desaparecimento | O setor não desaparece — se transforma. Operadores maiores e mais eficientes substituem o modelo pulverizado. O botijão continua. O operador médio de 2045 será diferente. |
4. O gás natural e a armadilha da circularidade
Para entender por que o GLP dura mais do que o mercado imagina, é necessário compreender por que o gás natural encontra dificuldade para substituí-lo no segmento residencial — especialmente nas regiões onde o botijão ainda domina.
O problema do gás natural no Brasil não está na oferta. O país tem gás. O pré-sal produz, as reservas crescem. O problema está na demanda. Ou melhor: na circularidade que impede a criação dessa demanda.
Para expandir a malha dutoviária residencial em uma região nova, é necessário garantir que a demanda futura justifique o investimento em infraestrutura. Mas a demanda só se materializa quando a infraestrutura existe. Sem romper esse ciclo — com subsídio estatal, âncora industrial de grande porte ou densidade urbana suficientemente alta — o payback do gasoduto não fecha. O investidor não entra. A rede não se expande.
O gás natural teria que construir a rede para depois atrair o consumidor. O bio-GLP já tem a rede. Só precisa do produto. A infraestrutura do GLP é o ativo mais estratégico da transição energética brasileira no segmento de última milha — e o mercado ainda não precificou isso.
5. O bio-GLP: a transição que preserva a infraestrutura
Há um cenário que os pessimistas sobre o futuro do GLP raramente consideram: o do produto que muda, mas a cadeia que permanece. O Gás Liquefeito Renovável — GLR, ou bio-GLP — é quimicamente idêntico ao GLP fóssil. Mesma estrutura molecular, mesmo desempenho, mesma aplicação. A diferença está na origem: biomassa residual, óleos vegetais, resíduos agroindustriais e urbanos em lugar do petróleo.
E a consequência mais relevante para o debate sobre o futuro do setor é esta: trata-se de um combustível drop-in, que não necessita de adaptações nos fogões a GLP. Isso significa que a chegada do bio-GLP ao mercado não destrói a cadeia de distribuição e revenda. Ela a ressignifica. Os mesmos botijões, os mesmos caminhões, as mesmas 59 mil revendas — com produto renovável circulando pela mesma infraestrutura.
O movimento já começou. Em 2025, o Brasil registrou o primeiro lote comercial de bio-GLP produzido industrialmente, via rota de Craqueamento Catalítico Fluidizado (FCC), na Refinaria Riograndense, em parceria entre Ultragaz, Petrobras e Braskem. A Copa Energia projeta produção em escala comercial para 2029.
A pergunta que os operadores do setor deveriam fazer não é "o bio-GLP vai substituir o GLP fóssil?" mas: quando o bio-GLP chegar em escala, quem vai distribuí-lo? A resposta mais provável é: os mesmos agentes que hoje distribuem o GLP convencional. Desde que ainda estejam operando.
6. O gargalo do aço: a ineficiência que o setor não resolve
Há uma crítica ao modelo operacional do GLP que circula no setor há décadas e nunca encontrou resposta definitiva. Ela não é regulatória. Não é tecnológica. É física.
De cada botijão P13 entregue, mais da metade do peso transportado é aço.
O P13 contém 13 kg de gás e pesa entre 14,5 e 15,5 kg vazio. Em 33 milhões de entregas mensais, isso representa uma ineficiência logística crônica e mensurável — em custo de frete, emissões de transporte e margem do revendedor —, embutida no preço final ao consumidor. Estima-se que entre 125 e 140 milhões de botijões P13 circulem atualmente no mercado brasileiro: cada mês de operação movimenta cerca de um quarto de toda a frota nacional, carregando a mesma proporção desfavorável de aço.
A otimização estrutural da cadeia do GLP passa, em algum momento, por endereçar essa equação. Não há solução simples: os recipientes de aço existem por razões técnicas e de segurança que não podem ser ignoradas. A regulação do INMETRO e da ANP sobre os vasilhames é rígida e justificada. Mas o debate sobre materiais alternativos mais leves, sobre modelos de recarga no ponto de consumo em maior escala, e sobre a racionalização do estoque circulante de botijões é um debate que o setor não pode continuar adiando.
O operador que souber reduzir o custo do aço — sem comprometer a segurança — captura margem, amplia competitividade e se posiciona melhor para receber o combustível renovável que virá pelos mesmos recipientes.
O que o setor precisa fazer hoje
O que separa os operadores que sobreviverão à compressão seletiva dos que serão comprimidos é a capacidade de agir agora, antes que o ambiente regulatório se resolva e o mercado precifique o que ainda é oportunidade. Quatro eixos são decisivos:
- Racionalizar a logística para reduzir a ineficiência estrutural do aço — por otimização de rotas, consolidação de estoque ou avaliação de recipientes mais leves compatíveis com as normas do INMETRO e da ANP.
- Preparar a cadeia para o bio-GLP, firmando contratos de longo prazo com produtores de renováveis e posicionando a operação para absorver o produto drop-in quando a escala comercial chegar — projetada para 2029 pelos primeiros movimentadores.
- Diversificar a base de clientes para segmentos não residenciais — comercial, industrial e agropecuário — que ainda valorizam a capilaridade do botijão e apresentam menor sensibilidade à eletrificação no horizonte de dez anos.
- Pressionar o poder público para que a transição energética seja tecnologicamente neutra — não enviesada para a eletrificação como única trajetória legítima.
7. A fronteira regulatória: o que a ANP ainda proíbe — e o que o GNL já abriu
Há uma dimensão do debate regulatório sobre o GLP que permanece sistematicamente fora das análises de mercado: a ANP ainda proíbe quatro usos do produto. O art. 25 da Resolução ANP nº 957/2023 veda expressamente o uso do GLP em motores de qualquer espécie (exceto empilhadeiras e equipamentos industriais de limpeza), saunas, caldeiras e aquecimento de piscinas. Essa proibição remonta à Resolução CNP nº 11/1978 — editada no auge do segundo choque do petróleo, quando o Brasil importava quase 86% do petróleo que consumia — e foi reiterada por décadas sem revisão substantiva.
A própria ANP reconheceu o anacronismo. A AIR nº 2/2025/SDL-CREG/SDL/ANP-RJ, aprovada em junho de 2025 no âmbito da Ação Regulatória 4.17, concluiu — após análise multicritério com nove avaliadores internos — que a alternativa mais adequada é a liberação imediata de todos os usos. A dependência externa caiu, o Polo GASLUB entrou em operação em setembro de 2024, e a EPE projeta crescimento de demanda de apenas 0,3% ao ano mesmo com liberação plena.
O caso mais sensível é o uso veicular — o verdadeiro tabu regulatório do GLP brasileiro. Enquanto 28,3 milhões de veículos rodam a autogás no mundo (Turquia, Coreia do Sul, Polônia e Itália na liderança), e oito dos dez maiores fabricantes globais produzem veículos a GLP de fábrica, o Brasil mantém uma proibição que ultrapassa a esfera regulatória: o art. 1º, inciso II, da Lei 8.176/1991 tipifica como crime contra a ordem econômica o uso do GLP em veículos automotores. Uma lei gerada pelo contexto da invasão do Kuwait em 1990 continua vigente em 2026. Desde 2019 tramita na Câmara projeto de revogação; ainda sem desfecho.
A conexão com a tese da infraestrutura maleável é direta: um posto de abastecimento de GLP veicular não precisa de gasoduto nem de rede elétrica de alta tensão. Precisa de GLP — e ele já chega a 100% dos municípios brasileiros. A circularidade que paralisa o GNV simplesmente não existe no GLP.
Nesse contexto, merece atenção um precedente regulatório produzido pela própria ANP em segmento adjacente. A AIR para a regulamentação do acesso às infraestruturas essenciais de gás natural (Ação 2.12 da Agenda 2022-2023, processo SEI 48610.205614/2022-48), aprovada em dezembro de 2023, aplicou pela primeira vez de forma estruturada a doutrina das instalações essenciais ao downstream de gás natural no Brasil, diante de um diagnóstico de concentração extrema (HHI de 9.795 no Sudeste e 9.806 no Sul/Centro-Oeste, com a Petrobras detendo 99,3% da capacidade de processamento nacional). Esse precedente importa ao setor de GLP porque o diagnóstico que justificou a intervenção nos terminais de GNL é semelhante — a questão é se, e quando, a transponibilidade do princípio pode vir a ser reconhecida.
Conclusão: o setor não vai acabar. Vai selecionar.
O GLP brasileiro tem fundamentos que o distinguem de mercados europeus frequentemente citados como referência de declínio do combustível. A heterogeneidade social, a dimensão continental, a infraestrutura inexistente de alternativas para a população de baixa renda e o papel estrutural do botijão como política pública de acesso energético criam uma barreira de saída que nenhuma projeção de eletrificação consegue eliminar em horizonte previsível.
A armadilha da circularidade do gás natural protege o GLP residencial por mais tempo do que o mercado estima. A chegada do bio-GLP pode não destruir a cadeia — pode renová-la. E a ineficiência do custo do aço é, ao mesmo tempo, o principal ponto de vulnerabilidade e a maior oportunidade de ganho competitivo para os operadores que souberem endereçá-la.
A reforma do GLP foi suspensa. O debate sobre o futuro do setor, não. O operador que monitorar esse movimento com antecedência não apenas sobreviverá à seleção. Estará em posição de moldá-la.
Aviso legal. Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e acadêmico, refletindo a análise e a opinião pessoal do autor sobre o setor de GLP e seu ambiente regulatório. Não constitui consultoria jurídica, recomendação de investimento ou opinião formal do escritório sobre casos concretos, tampouco deve ser interpretado como parecer aplicável a situações específicas de terceiros. As estimativas financeiras e quantitativas aqui apresentadas foram calculadas a partir de fontes públicas — notadamente a AIR ANP nº 2/2025/SDL-CREG/SDL/ANP-RJ, dados da EPE e do SIMP/ANP — mediante metodologia própria do autor, com premissas simplificadoras explicitadas no texto; têm natureza aproximativa e não substituem estudos técnicos especializados. Cenários prospectivos refletem expectativas correntes e estão sujeitos a revisão diante de fatos supervenientes. A reprodução total ou parcial deste conteúdo é permitida mediante citação da fonte e do autor.